Casal com línguas maternas diferentes: como conversar, discutir e não transformar o amor em aula
Se a língua do casal é a materna de um dos dois, ela nunca é compartilhada por igual: quem fala na própria língua é mais rápido, mais preciso e leva vantagem na discussão, enquanto a outra pessoa termina o dia simplesmente exausta. O que ajuda são combinados simples: falar mais devagar na hora da briga, deixar cada um passar para a própria língua, não corrigir erros no meio da discussão e decidir com sinceridade quem ensina quem, e quando.
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Uma briga numa língua que não é a sua costuma seguir este roteiro. Você sabe exatamente o que quer dizer, mas só tem à mão palavras de nível B1. A frase sai mais curta e mais ríspida do que aquilo que você sente. Do outro lado, a pessoa ouve raiva e responde com raiva. Cinco minutos depois, vocês já não estão discutindo quem esqueceu o jantar com os amigos, e sim o tom com que isso foi dito.
Ter línguas maternas diferentes não condena um relacionamento. Mas casais assim têm uma mecânica própria: a língua que sustenta todo o resto, uma desigualdade de que ninguém fala em voz alta e a tentação de pôr a pessoa amada no papel de professor. A seguir, falamos de cada uma dessas coisas e dos combinados que ajudam.
Em que língua vocês conversam
Todo casal tem a “sua” língua, normalmente aquela em que vocês se conheceram. Ela se firma nas primeiras semanas, e depois fica difícil trocar: foi nela que surgiram as primeiras piadas e as primeiras declarações, foi nela que vocês aprenderam a se entender com meia palavra.
Na prática, são três opções:
- A língua materna de um de vocês. Uma pessoa fala com fluência e ajuda; a outra é quem aprende mais depressa. O preço é a desigualdade: uma está sempre “em casa”, a outra, sempre de visita.
- Uma terceira língua, quase sempre o inglês. Vocês ficam em pé de igualdade, e ninguém sai na frente. Em compensação, perdem nuances, piadas e palavras de carinho, e brigar nessa língua é difícil para os dois.
- As duas línguas, alternadas. Cada um pratica, e cada um de vez em quando fica “em casa”. Sem um combinado, isso logo se perde: vence a língua em que é mais fácil falar.
A língua do casal pode ser trocada. Isso costuma acontecer depois de uma mudança de país: se vocês moram no país do seu par, em um ou dois anos a língua local muitas vezes acaba tomando o lugar do inglês, simplesmente porque é a que todo mundo fala ao redor de vocês. É melhor trocar de língua de propósito do que esperar que isso aconteça por si só. Por exemplo: combinar que, em casa, vocês falam a língua do seu par durante a semana, e a sua nos fins de semana.
Muitos casais vivem em duas línguas ao mesmo tempo e as dividem por assunto: as coisas da casa numa, o carinho na outra, as brigas naquela em que for mais fácil. Se isso funciona para vocês, não há nada a consertar.
A desigualdade de que ninguém fala
Quem fala na própria língua quase sempre leva vantagem na conversa. Encontra as palavras mais rápido, formula com mais precisão, percebe melhor as nuances. Enquanto isso, a outra pessoa traduz de cabeça, procura a palavra, perde o fio da meada e, vista de fora, parece mais limitada do que é.
Veja o que costuma sentir quem vive numa língua que não é a sua:
- Cansaço no fim do dia. Um dia inteiro na segunda língua esgota como um dia de trabalho. Se às dez da noite o seu par responde com monossílabos, é mais provável que seja cansaço do que frieza.
- “Nessa língua, eu pareço menos inteligente do que sou.” Na sua língua, você é uma pessoa espirituosa; na outra, uma pessoa educada e meio sem graça. Isso dói, e vale a pena dizer em voz alta.
- Dependência. Se é sempre o seu par quem liga para o médico, conversa com o dono do apartamento e decifra as cartas do banco, os papéis no casal vão mudando aos poucos: de um lado fica “o adulto”, que resolve; do outro, alguém por quem os outros decidem.
- Solidão no meio da turma. Os amigos do seu par fazem piada, todo mundo ri, e você sorri junto, entendendo só metade.
O que ajuda:
- Dar nome ao problema. Uma frase como “Hoje está difícil falar em inglês, vamos terminar essa conversa amanhã?” tira metade da tensão: o seu par para de tentar adivinhar o que aconteceu.
- Quem está “em casa” deve desacelerar. Frases mais curtas, menos expressões idiomáticas, pausas para a outra pessoa conseguir entrar na conversa. Principalmente numa discussão.
- Autonomia nas pequenas coisas. Deixe quem está “de visita” pedir a comida, escrever para o técnico e perguntar o caminho, mesmo que demore mais. Em seis meses, isso compensa.
- Trocar de lugar de vez em quando. Uma noite, um fim de semana ou uma viagem na língua materna de quem normalmente está “de visita”, e quem costuma estar “em casa” sente na pele como é. Não existe remédio melhor contra a condescendência.
- Não traduzir sem que peçam. Numa roda de amigos, pergunte se a pessoa precisa de ajuda, em vez de traduzir cada frase. Às vezes, para ela, é mais importante entender sozinha, nem que seja a metade.
Como discutir numa segunda língua
Brigar é normal. O problema é quando a briga anda em círculos porque vocês estão discutindo com as palavras, e não um com o outro. Estas são regras a que muitos casais chegam sozinhos, em geral depois de algumas brigas que terminaram mal.
Fale mais devagar do que dá vontade
Quanto mais forte a emoção, mais rápida a fala. E quanto mais rápida a fala, menos o seu par entende. Quem discute na própria língua precisa, numa briga, falar mais devagar do que o normal, mesmo que a vontade seja despejar tudo de uma vez.
Reformule para conferir
Não “quê?”, e sim “então você está dizendo que…?”. A reformulação mostra exatamente o que você entendeu, e muitas vezes fica claro que você entendeu outra coisa. Boa parte das brigas desses casais gira em torno de uma frase que ninguém disse.
Aprenda palavras que suavizam
Na nossa própria língua, suavizamos as frases sem perceber: “acho que”, “um pouquinho”, “talvez”. Na segunda língua, essas palavras faltam, e um pedido soa como ordem; um comentário, como sentença. Aprenda cinco ou seis expressões que suavizam na língua do casal. Talvez sejam as palavras mais úteis do relacionamento de vocês.
Por exemplo, em inglês:
You never listen to me.I feel like you're not really listening right now.Do it now.Could you do it now, please?You are wrong.I see it a bit differently.
O tom não é a mensagem
As regras de educação mudam de uma língua para outra, e é fácil confundi-las com o jeito de ser da pessoa. Em português, “me passa o sal?” na mesa é um pedido normal. Em inglês, “pass me the salt”, sem “could you” nem “please”, soa grosseiro. A franqueza alemã pode parecer dura para quem está acostumado a rodeios. Já em muitas famílias brasileiras, no almoço de domingo, todo mundo fala ao mesmo tempo: não é briga, é só conversa. Antes de se ofender com o tom, pergunte-se: como isso soa na língua do meu par?
O direito à língua materna
Combinem que, no calor da emoção, cada um pode passar para a própria língua: desabafar, xingar, dizer o que não sai em língua estrangeira. E, quando a raiva passar, contar o principal na língua do casal. A raiva sai na língua materna; o acordo se faz na língua de vocês.
Se não der para falar, escreva
Às vezes é mais fácil escrever. Numa mensagem, há tempo para escolher as palavras e tirar o excesso de aspereza. Não é fugir da conversa, e sim um jeito de dizer o que você realmente quer dizer. Só não transforme a troca de mensagens numa ata de reunião: depois de escrever o principal, conversem.
Nunca corrija erros no meio de uma briga
Nem quando o seu par troca uma palavra e o resultado fica engraçado. Corrigir a gramática durante uma discussão é o jeito mais garantido de fazê-la durar o dobro. A pessoa não ouve “eu te entendi”, e sim “você não consegue nem falar direito”.
Criem uma palavra-código
Uma palavra só de vocês que quer dizer: “não estou mais entendendo o que está acontecendo, vamos fazer uma pausa”. Se for engraçada, melhor ainda. Dizer essa palavra é mais fácil do que explicar numa língua estrangeira por que a DR empacou.
Seu par não é seu professor
Aprender a língua com quem você ama parece a opção perfeita: um falante nativo ao seu lado, de graça, todos os dias. E funciona mesmo, enquanto nenhum de vocês virar professor.
Quando uma pessoa corrige o tempo todo e a outra erra o tempo todo, surge uma hierarquia no casal. Quem recebe as correções começa a falar menos, para não errar. Quem corrige se irrita porque é “sempre a mesma coisa”. Em seis meses, a língua que deveria aproximar vocês já cansou o casal.
Combinem com antecedência:
- Quando corrigir. Por exemplo, só por mensagem ou numa “hora do idioma” separada. Na conversa ao vivo, não.
- O que corrigir. Só o que atrapalha o entendimento e o que se repete. Não todo e qualquer erro.
- Como. Não “está errado”, e sim “a gente fala assim”. Por mensagem, dá para corrigir sem interromper: no Date&Learn, por exemplo, a frase corrigida aparece logo abaixo da mensagem, e a conversa segue.
- Quem explica a gramática. Explicar regras é trabalho de professor. A estrutura vem de um curso ou de aulas; o seu par traz a língua viva: como se fala de verdade, o que é engraçado, o que é grosseiro, o que soa como livro didático.
O que costuma dar certo a dois:
- cozinhar seguindo receitas na língua do seu par;
- ver séries com legenda na língua que um de vocês está aprendendo e discutir sobre os personagens;
- jogar jogos de tabuleiro em que é preciso falar;
- trocar mensagens durante o dia na língua que um de vocês está aprendendo: por escrito, há tempo para pensar;
- manter uma lista de palavras “de vocês”: as engraçadas, as carinhosas e as que não têm tradução.
A família do seu par
O mais difícil, muitas vezes, não é o seu par, e sim os sogros. Eles podem não falar nenhuma língua além da deles, e a impressão que você causa se forma logo na primeira noite.
O que vale preparar antes do encontro:
- Como tratar os pais do seu par. Pelo nome, por “o senhor” e “a senhora”, por “mãe” e “pai”: isso muda de família para família e de cultura para cultura, e um deslize aqui chama mais atenção do que qualquer erro de gramática. Pergunte ao seu par com antecedência.
- Dez frases. Um cumprimento, “muito prazer”, um agradecimento pela comida (“estava uma delícia”), “posso repetir?”, “como se chama esse prato?”, “que casa bonita”, um brinde curto, “desculpe, ainda não falo bem”, “pode falar de novo, mais devagar, por favor?”, uma despedida.
- Uma apresentação curta: quem você é, de onde vem, o que faz. Ensaie em voz alta.
- Assuntos que é melhor evitar. Pergunte ao seu par o que não se discute à mesa na casa dos pais.
Essa noite também não é fácil para o seu par, que faz o papel de intérprete e fica de olho em todo mundo ao mesmo tempo. Combinem um sinal para quando você precisar de ajuda, e também que o seu par não vai traduzir cada palavra. Às vezes é melhor entender metade e rir junto com todo mundo do que ouvir uma tradução simultânea.
Se vierem filhos
A versão curta: duas línguas em casa não fazem mal às crianças. Muitas famílias bilíngues seguem a regra simples de “uma pessoa, uma língua”: cada um fala com a criança na própria língua materna. Por um tempo, as crianças misturam as línguas na mesma frase, e isso é uma fase normal, não confusão. Vale combinar duas coisas: em que língua vocês conversam entre si na frente da criança e o que vão fazer se uma língua começar a engolir a outra.
Quando o problema não é a língua
Às vezes, a língua vira a explicação cômoda para tudo. “A gente não se entende” parece um problema de idioma, mas pode significar expectativas diferentes, cansaço ou uma mágoa de que ninguém falou. Um teste simples: vocês discutiriam por isso se falassem a mesma língua? Se a resposta for sim, a língua não tem nada a ver com a história, e a conversa precisa ser sobre o assunto, não sobre as palavras.
Se você ainda está procurando alguém de outra língua
Muitos casais de línguas diferentes começam com uma troca de mensagens para praticar. No Date&Learn, o perfil de cada pessoa mostra o que ela veio buscar: prática de idiomas, amizade, amigos por correspondência, encontros presenciais ou namoro. Ninguém precisa adivinhar se a outra pessoa procura um relacionamento. Como falar do seu objetivo com sinceridade sem estragar o intercâmbio, contamos no guia sobre intercâmbio de idiomas e namoro.
Perguntas frequentes
Em que língua um casal deve conversar se as línguas maternas são diferentes?
Naquela em que vocês se sentem à vontade para falar de assuntos difíceis: dinheiro, planos, mágoas. Muitas vezes é a língua de um de vocês ou uma terceira, como o inglês. O importante não é a decisão “certa”, e sim o combinado, e de tempos em tempos vale a pena revê-lo.
Dá para ter um relacionamento se a língua em comum é um inglês intermediário?
Sim, muitos casais vivem assim, principalmente no começo. Mas falar de sentimentos e de conflitos no nível intermediário é mais difícil, então vale continuar estudando. O ideal é aprender a língua um do outro, e não só a terceira língua em comum.
Por que brigamos mais pelo tom do que pelo assunto?
Porque numa segunda língua é difícil suavizar as frases, e as regras de educação mudam de uma língua para outra: uma frase direta, normal numa língua, soa grosseira em outra. Ajudam a reformulação (“você quer dizer que…?”) e algumas expressões que suavizam na língua do casal.
Vale a pena aprender a língua do seu par se vocês já conversam em inglês?
Vale, se vocês pensam numa vida a dois. É nessa língua que falam a família e os amigos do seu par, e é nela que estão as piadas e a infância de quem você ama. Mesmo um nível básico muda muita coisa: você deixa de ser visita no mundo dessa pessoa. Só não terceirize o estudo para o seu par: a estrutura vem de um curso ou de aulas, e o seu par traz a língua viva.
Como parar de corrigir o seu par quando a vontade é grande?
Combinem uma hora e um lugar para as correções (por exemplo, só por mensagem) e cumpram o combinado. Na conversa ao vivo, responda ao sentido, não à forma: se você entendeu o que o seu par disse, o erro pode esperar.